terça-feira, 17 de junho de 2014

Retratos Autobiográficos

Há quase seis meses atrás, Lúcio e Sabrina, ainda namorados, resolveram que era hora de viverem juntos. Agiram como uma parte da sociedade atual, que em vez de fazerem uma cerimônia, formalizaram a decisão somente no cartório, juntaram suas coisas e foram dividir uma vida comum.
Na semana passada, Sabrina teve a oportunidade de conversar com a sua sogra até que o assunto da conversação foi a "união moderna" que o casal escolheu e como as pessoas reagiram ao modo de vida que os dois  resolveram seguir. Ela ficou espantada como ainda vivemos numa sociedade em que valores como o conservadorismo e a tradição estejam tão presentes na nossa vida, mesmo que o pano de fundo do comportamento social atual seja a "modernidade" e a transgressão do convencional.
Meus caros, o meu objetivo aqui, ao trazer a história desse casal não é de manchar os sagrados votos do casamento, mas de mostrar que as pessoas ainda massacram e apontam o dedo para aqueles que optam por viver de maneira diferente do comportamento tido como o habitual. Na verdade, muitos valores se atualizaram em séculos de história, e hoje os seres humanos se sentem a vontade para experimentar uma vida diferente, com contratos sociais menos rigorosos que os de nossos antepassados, pois são capazes de observar que o casamento hoje em dia é sobretudo uma questão de escolha e um caminho a ser trilhado a dois.
Nesse momento, Sabrina percebeu que estava errada. Na verdade, ela não estava se casando somente com Lúcio, mas com uma sociedade ferina, implacável, machista e paternalista pois as pessoas que lhe cobraram o casamento segundo o script sequer lhe desejaram felicidades ou lhe perguntaram como estava sendo a vida a dois. Em vez de tudo isso, já lhe cobram a prole, querem saber quando terá herdeiros e com 28 anos de idade, a sua prioridade deveria ser a de perpetuar a espécie.
Ao analisar o comportamento dessas pessoas, Sabrina percebeu o quanto foi vítima de preconceito e julgamento alheio por ter  feito escolhas diferentes. Não importa o bem-estar, a felicidade ou o que quer que seja - e nesse caso nem está em questão o fato de um casamento como os contos de fadas, mas pensar na intenção das pessoas, que ao juntarem suas vidas, estão engajadas num bem comum -, é preciso seguir o script social. Viver é, mesmo que você não queira, um contrato assinado com a sociedade. Ela é inquisidora, cobra contas e por mais que venha com um discurso de modernidade, vanguarda e mudança, continua sendo extremamente conservadora, medieval e paternalista.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Quais são as lições que a morte do dançarino DG e de tantos outros que se foram em contextos parecidos deixam para nós? Em vez de ficarmos julgando se ele era culpado ou não, se há evidências que o colocam como um suspeito de delitos criminosos, deveríamos refletir sobre tudo o que vem acontecendo no Rio de Janeiro como a representação micro da violência que ocorre em todo o país e sugiro que  a investigação fique com os órgãos competentes.
Durante muito tempo, os cidadãos que viviam nas comunidades reclamaram para si a autonomia de vida e o direito de ir e vir pois se sentiam atormentados todos os dias pelo domínio do poder paralelo e pela  intensa violência recorrente nos arredores de onde moravam. Eram recorrentes as disputas de pontos de venda de tráfico de drogas, brigas de facções inimigas, dentre outros elementos que segundo eles, impediam-lhes de seguir uma vida normal. Para alguns, a esperança de viver uma nova condição de vida começou quando o projeto de pacificação  das favelas saiu do papel e foi para a prática. Outros olharam com medo ou desdém para essa mudança que estava sendo prometida. Desde a implantação da primeira UPP (2008) até hoje, o projeto foi louvado, criticado e detestado. Aqueles que outrora eram a favor já não o são mais, o que antes era alívio se tornou ameaça, e a promessa de que o tráfico de drogas seria controlado foi só uma utopia. Isso se torna evidente diante dos últimos ataques que as bases do Complexo do Alemão e Rocinha acabaram sofrendo.
Mas, e as lições de que eu falei no primeiro parágrafo? Depois dessa longa digressão quero dizer que diante do nosso sistema, o tráfico de drogas jamais poderá ser contornado. Ou eles, - os criminosos - podem estar vivendo onde sempre estiveram, mas atuando de modo diferente, ou então escolherem migrar para outras regiões e fazer a divisão de seus monopólios com mais tranquilidade. Mas como foi citado no parágrafo anterior, certamente muitos deles estão por aqui, jamais saíram de seus locus e agora possuem o status da invisibilidade.   Depois de seis anos de implantação do projeto, a lição maior de tudo isso é que a UPP foi uma implantação autossabotadora do Sistema de Segurança do RJ contra ela mesma. Ao criar esse sistema de proteção que visa tirar a sociedade do jugo do traficante, criou também o discurso de que não há mais bandidos no local, o que faz com que qualquer ato da polícia seja visto como algo hediondo, que a perseguição e violência que ocorrem no local sejam contra os habitantes locais e não contra os criminosos. 
Segundo a população, esses atos são contra a sociedade, porque já "não há bandidos no local", ou seja, a polícia age despropositadamente e a cada dia que passa ela é vista como um elemento que não possui relevância para a proteção das pessoas, está desacreditada, tem o status de corrupta e  vai contra o interesse dos cidadãos para os quais ela tem uma responsabilidade social. Isso quer dizer que a polícia  vive o pior momento de sua história, uma enorme crise de sua atuação, de seus interesses e propósitos. Pessoas inocentes e culpadas morrem em ações da polícia e infelizmente estão sendo colocadas lado a lado. Já não conhecemos mais o inimigo e em contrapartida, a polícia já não existe, é só um elemento de fachada. A morte do DG nos mostra que não há mais segurança pública, que estamos em guerra e diante de uma anarquia da ordem.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Esse blog tem como objetivo trazer à tona elementos da nossa sociedade, sejam eles de natureza social, religiosa, filosófica ou política. Ou seja, nosso principal objetivo é discutir criticamente sobre os eventos e situações que nos cercam, dada a gama de informações à qual somos submetidos todos os dias e pensar como tudo isso nos afeta ou nos influencia.